Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Amar

Àqueles que buscam consolo
no amor, uma saída
podem encontrar maior dolo
e na vida, mais uma ferida.

Não querer algum conforto
nem algo para se apegar
pois igual a um manco, torto
é esse mistério de amar.

Endeusar uma mulher bonita
pode  ser um embuste
se a inteligência não se exercita
e um mau caráter enruste.

Armadilha, quase doença
que aumenta se há negação
é saber a diferença
entre amor e paixão.

Paixão é fogo que queima,
transtorna, excita, que ardor!
Um prêmio, uma prova, uma prenda
se transforma-se em amor.

Explicar o amor? Improvável.
Gostar de alguém, e cuidando
e se o tempo tornar intragável,
troque, e continue amando.

Viver na destemperança
como um fardo, cheio de dores?
Eu quero a esperança:
prefiro morrer de amores.

Domingo, Novembro 29, 2009

Muitas Marias

Maria só ria
das possibilidades
que tinha:
ou ficava e casava

ou ia e vivia
a nova vida que,
quem sabe,
teria.

Maria pensava, pensava
pensando, dormia
sonhando acordada
sorria, sozinha.

Maria, Maria,
sorria... só ria...
De tanto pensar,
ficou pra titia
.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

Nova Gramática

Às vezes
ponto final
é somente
uma virgula
.

Domingo, Novembro 15, 2009

APENAS O FIM DO MUNDO



de Jean-Luc Lagarce
direção de Brunella Provvidente

Última apresentação:
Dia 01/12 no IBAM
às 19:00

De Graça!

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

À Noite

Um vinho
Dois vinhos
três vinhos.

Uma caneta e
um caderno:
já não
estou sozinho
.

Terça-feira, Novembro 03, 2009

SPLEEN

Sou como um rei sombrio na melhor terra do mundo,
Rico mas incapaz, jovem mas moribundo,
Tudo é belo e nada me satisfaz
Toda a carne me é fugaz.
Não acho graça de nada nem no meio das riquezas,
Nem em uma boa bebida, nem em grandes proezas.
Nada me agrada e me faz sorrir
Nem a mulata em seu ir e vir
pode tornar irreverente
esse peito pobre e doente.
Em minhas veias não corre sangue, nem sorte
Corre as densas águas negras da morte
.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Ré - sentimento

Quando o infinito terminou
Pensei que ia ser assim:
Eu continuo te amando
Você também gosta de mim.

O tempo correu demais
e assim sucedeu-se:
eu julgava que tinha o amor,
que pouco a pouco perdeu-se.

Depois da tempestade
não veio a bonança.
É falso o ditado de
quem espera sempre alcança.

O nosso amor eterno
mostrou-se frágil demais.
Agora é a lei de Gérson:
o que perdeu-se,
cada um que corra atrás.

Triste a sina de quem ama,
e de quem não é amado.
Que seja eterno, posto que é chama
e antes sol,
do que mal acompanhado
.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

A vida é um curto e frágil sonho

Os amores que teve na vida
os amigos que socorreu...
todos juntos na despedida
ao amigo Jayme: morreu.

Velando nos questionamos:
como tudo aconteceu?
O destino é igual para todos
e um dia, ainda, serei eu.

De tudo, fica um pouco.
A lembrança: um bem comum.
Para nós, se foi um amigo.
E no cemitério, mais um.

Os que acreditam na vida pós-morte
(eu não consigo acreditar)
para eles, ainda há sorte.
Para mim, restou lamentar.


Caju, Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2009
.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

O cheiro do sexo

Prólogo

Depois de dias de chuva intensa, veio o sol. Era sábado quando enfim resolveu abastecer sua dispensa. Desceu até a feira e comprou um peito de frango, uma cabeça de alho e cebola. Parou na barraca de frutas quando ouviu:

- Quanto é?

Ao virar o rosto, viu que a voz suave vinha de uma morena que pagou e saiu com duas sacolas na mão. Enquanto andava, pôde apreciar o movimento daquela bunda rebolativa:

- Maravilha

Ato 1

Depois de algumas horas em uma exposição de arte contemporânea em uma galeria em Copacabana, chegou à uma instalação onde devia percorrer um corredor dos sentidos: uma espécie de labirinto das percepções que exalava cheiros distintos durante o percurso. O participante devia entrar vendado e sem sapato. Saiu todo cheiroso e foi ver o nome da artista: Verônica.

Ato 2

Foi almoçar em uma espelunca na esquina de sua casa e viu novamente a Bunda: comendo, sentada, sozinha. Havia poucos lugares vagos. Descansou o prato na mesa e deixou o programa da exposição no canto:

- Você foi?
- Oi? Fui, fui.
- Boa, né?
- Muito, muito boa...          Qual seu nome?
- Verônica.
- Marcos.

Verônica só acreditou que Marcos era realmente um performer quando a fez gozar pela segunda vez chupando sua buceta. Marcos ainda repetiria o mesmo movimento algumas vezes naquele dia: melhor que comê-la e mordiscar sua bunda era chupá-la sentindo o delicioso aroma e o gosto que ele jamais havia sentido.

Se amor de pica fica, amor de xota faz o quê?

Ato 3

Depois de dois meses de relacionamento, Marcos confessou à Verônica que era apaixonado pelo seu perfume e gosto. Verônica riu. Riu muito. Marcos quis saber o segredo. Ela riu de novo e o fez prometer que nunca ia contar para ninguém. Ele prometeu.

- É pêra.
- Existe perfume pra xoxota?
- Não, não. É pêra mesmo.
- Como assim "pêra mesmo"?

Ela riu.

- Eu coloco um pedaço de pêra algumas horas por dia.

Epílogo

Marcos não perguntou com quem Verônica aprendeu isso. Mas achou que fosse um segredo de família: ela devia ser descendente de um clã de mulheres-pêras. Marcos não casou com Verônica. E como vocês devem ter percebido, também não cumpriu sua promessa.

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Horóscopo

O amor está no ar...
Tome a sábia decisão:
Está fácil de pegar
é só levantar a mão
.

Domingo, Outubro 11, 2009

Antes sol




do que mal acompanhado
.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Brigar com Deus

Ontem briguei com Deus.
Isso me deixa triste:
tamanha besteira brigar
com quem não existe

.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Brigar

Só brigo com
quem gosto.
Quem não gosto:
foda-se

.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Lata de sardinha

Anda para lá e para cá
a gente trabalhadeira.
Subindo e descendo a ladeira
pro patrão não arregá.

O catolicismo ganha adeptos
à noite, na volta para o lar.
No ônibus, sem reclamar,
lá vamos: bando de insetos.

E quem paga imposto
Vai sentindo desgosto
e não para de pensar:

Faço como o deputado
ou o "doutor" delegado,
e me ponho a sonegar?

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Onde a memória alcança


No ponto mais distante
da minha memória sou
o Super Herói mais forte da turma.

Minha mãe sorri orgulhosa e
tira do alto do armário
o ponto mais alto que
minha vista alcança:

uma caixa de isopor de
onde saí uma super máquina
fotográfica, que registra
a minha lembrança mais antiga.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Do tamanho de um botão



Quando eu era pequeno queria ter os braços do Arnold Schwarzenegger. Queria ser o Jaspion para salvar o mundo dos monstros gigantes. Adorava os guardas: sempre que via um na rua gritava: “Oi, amigo policial!” Uma vez minha mãe fez um bloquinho e eu saí multando todos os carros do condomínio de sete blocos em que eu morava, no Rocha. Também fez um chequinho uma vez, e o processo foi o mesmo: saí distribuindo cheques pelas mercearias e estabelecimentos, mesmo sem levar nada. Depois quis ser jogador de futebol, passava horas do dia pensando nos rios de dinheiro e nas mulheres que o menino orelhudo iria ter a seus pés. Eu tinha o meu próprio quarto, minhas coisas, e queria um carrinho de fórmula um. Uma vez vi na TV um “papa-ficha” e pedi: "mãe, eu quero um!" E não é que de noite ela me trouxe um! Foi a única vez que me fez uma surpresa dessa... Naquela época, brigar com ela era bem mais simples: me trancava no meu quarto, e de noite, deixava um desenho embaixo da porta dela com duas mãos “cortando de mau”. Quando fazíamos as pazes, desenhava mãos “cortando de bem” . Tenho esses desenhos até hoje. Passava horas desenhando o mar, montanhas e o Batman e Robin. Escrevia cartas de amor com minha péssima caligrafia infantil. Queria ter um irmão. Eu não lembro, mas minha mãe relata que eu dizia estar vendo meu irmão e que até brincava “com ele”, eu tinha dois anos. Minha mãe perdeu um filho antes de mim, e eu nem sabia...Também pensava em me matar. Olhava a janela da sétimo andar e pensava: “vou pular!” Tinha muitos sonhos em que eu acordava quando estava prestes a me espatifar no chão. Pensava em cortar os pulsos também, e já cheguei a pegar uma faca e posiciona-la para tal. Quando eu era pequeno, perguntava pra minha mãe o que eu estava fazendo dentro daquele corpo, não entendia como eu tinha ido parar ali.

Depois a gente cresce.

Raoni Seixas - março de 2005, postado pela primeira vez no tufos e pela segunda no tlfsc.blogspot.com em 10/abril/2006

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Intuição

Não adianta: Tem certas coisas
que se cansa de ouvir, mas
entender mesmo demora
um tempo, às vezes, anos.

Sua avó já lhe dizia:
"ouça a voz do coração".
"Coisa mais senso comum" -
resmungou. Depois aprendeu.

Como quando achou que
devia chamar a
menina da escola para
o cinema.
E não chamou.

Como quando achou que
não devia ir a
Nova Yorque e não foi.
E se livrou de ver
a cidade desabar.

Relembrou o passado
Entendeu tudo:
E foi correr atrás
do que realmente importa.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

O que os olhos não vêem - 2

O que o olhar não vê
O coração ressente
Esse amor que agora ausente
A gente já não mais crê.


Se queremos melhorar
Por onde, eu estou fazendo
Mas ainda não merecendo
De novo o seu olhar


Mas se ainda acredito
Não quero ganhar no grito.


Só peço, de novo, para ter
A chance de ainda te ver.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

O Amor em 3 Atos

Prólogo

Olho no olho.
O coração bate junto
com a música e o
suor escorre enquanto
danço.
Uma tequila.
Luzes colorem os corpos.

Ato 1 - TESÂO

Quando o corpo esquenta
O coração bate mais forte.


Me aproximo e já não sei onde termina o cheiro do seu perfume e começa o do seu suor, que eu gosto. Seu quadril se encaixa no meu como o pé do boneco Lego se encaixava perfeitamente na base verde. Ou como o Cirilo queria combinar com a Maria Joaquina e ela não percebia isso, mas nós percebemos. Tudo em volta desfocado e seu rosto é um zoom super close que me encara. Você dança e vejo a gota de suor escorrer do lado direito do seu rosto, perto da orelha, e escorrer até o pescoço e, numa virada da música, a gota pula no canto esquerdo da minha boca e pela primeira vez eu sinto seu gosto: salgado como o mar, gostoso como lsd. Você mexe seu corpo como eu nunca vi na vida e me contagia a cada vez mais dançar contigo.

A segunda vez que sinto seu gosto é uma mistura de tutti-fruti do chiclete com a cevada da cerveja. Mas agora você está iluminada pela luz vermelha do meu quarto, onde a batida de tecno foi substituída pelo som anos 70 do Sérgio Mendes, ou vamos de Gil Evans, ou Blue Camel, ou porra, os CDs caíram no chão e vamos de Sérgio Mendes mesmo.

O roteiro vai sendo cumprido com excelentes atuações e podemos ter dois finais. O mais comum é eu querer que você vá embora depois do baseado.

- Qual seu nome mesmo?
- Pedro.
- Ah é, como o ator que faz o Agostinho.
- Pois é, você fez esse link, né?
- Foi, foi...
- Você é Isabel, que nem o nome da mulher dele.

Rimos.

Você fez menção de ir embora e eu te convidei para ficar.

ATO 2 - Paixão

Quando o corpo esquenta
Eu perco a cabeça.


No dia seguinte ele me ligou todo fofo e eu já não consegui fazer mais nada: tudo que eu fazia me lembrava ele. Procurei o perfil dele no orkut sem adicioná-lo, e o facebook me dizia que ele estava feliz. O Google me contava que ele já tinha exposto em Paris e Londres e tratei de comprar a "História da Arte" no mercadolivre.com, com entrega para dois dias. Não, cancelei e fui até a Saraiva da esquina. Não tinha esse tempo e precisava saber tudo sobre a idéia da perspectiva na Renascença.

Quando te encontrei pela segunda vez falei muito, pensei muito e te amei perdidamente.

ATO 3 - Amor

Quando o fogo acaba
Ou fica amor
Ou não fica nada


Isabel e Pedro não saiam da casa de um e de outro durante dois meses e prometeram se amar pra sempre. No terceiro mês tiveram a primeira briga mais ríspida em que eles não perceberam, mas inaguravam um outro momento no relacionamento: como cruzar a fronteira entre Rio e São Paulo achando que está indo para um lugar pior, quando na verdade é apenas um outro lugar. Ser bom ou ruim só depende do que se vai fazer lá.

Sábado, Agosto 22, 2009

Comentando os comentários

O escrito do dia 03 de Julho virou motivo de debate. Muita gente o interpretou como um desprezo à opinião do leitor, o que não é verdade. Se eu não quisesse interlocutores ou leitores não teria feito um blog e faria como muita gente que deixa tudo fechado no caderno.

O que eu quis deixar claro era uma opinião de que o espaço de comentários em um blog sempre me pareceu como uma necessidade de valorização da escrita, quando ela não precisa se legitimar pelos comentários dos leitores. Esse pensamento está ligado também a uma reflexão de que o escritor não precisa responder a certas questões levantadas pelo público a fim de fazê-los refletir sobre o que leram. Isso aconteceu aqui, por exemplo, quando questionaram se o que escrevi era baseado em fatos ou não. No dia 17 de Julho de 2008 escrevi superficialmente sobre isso.

Um dos meus leitores disse que sempre escreve para alguém. No meu caso, eu às vezes escrevo sobre alguém (ou alguma coisa). Quando escrevi sobre a Bia, não escrevi para ela (31 de março de 2009). Fiz questão de mostrar para ela, mas no momento em que escrevi, Bia era mais uma saudade do que uma interlocutora, mais um sentimento que ficou em mim do que alguém com quem gostaria de conversar. Outras vezes transformei pensamentos e fatos que me arrebataram, sempre com a necessidade de transformar o real em outra coisa, às vezes dando contornos maiores ao ocorrido, outras vezes inventando tudo mas com algum compromisso com a realidade, outras vezes sem compromisso algum com o real.

A questão é que não importa se é ou não ficção ou se as pessoas comentam ou não, mas para um escritor o que importa realmente é escrever. E não é que eu não goste dos comentários, muito pelo contrário: eu adoro conversar sobre o que escrevo. Mas o fato é que durante o processo criativo não costumo pensar em quem vai ler. Só penso nisso quando estou no final desse processo, quando o escrito está recebendo o polimento para ser mostrado. Quando eu acabo de escrever, algo em mim também acaba. E é quando eu fecho essa porta que eu posso abrir outra, para os leitores que se sentirem a vontade de compartilhar estes pensamentos deixados aqui.