sexta-feira, março 18, 2005

Rio de janeiro, dezoito de março de dois mil e cinco

Caro Mario de Andrade,

Nesta semana pensei em escrever um conto sobre o dia internacional da mulher. Imaginei uma família em que o marido batesse na mulher, mas no tal dia oito de março ele a tratava como uma princesa, pois “este era o seu dia”. O fato é que nossas últimas correspondências me fizeram refletir sobre os assuntos que escolho e sobre a forma estética na qual os concebo, e acabei me atendo mais nesta reflexão do que na construção da minha mensagem. Esta semana foi bastante desgastante. Estou me dedicando muito aos meus estudos na universidade e também aos assuntos políticos que a rodeiam. È surpreendente ver o movimento político que acontecesse dentro do sistema educacional. Sou suplente da Helena no CEB- conselho de entidades de base, similar ao DCE na UNIRIO, e ela também me indicou a participar de um conselho que definirá os objetivos da secretaria de apoio ao estudante , e esses, mais as reuniões do diretório acadêmico, tem me cansado, Mário. E, por vezes, tentando fazer o melhor pela escola de teatro, ainda somos mal compreendidos pelos professores que preferem confrontar em vez de dialogar e orientar. E às vezes me pergunto: porquê? Por que me meter nessas coisas? O que me motiva a investigar isso? Mas nem vou me dedicar a responder estas perguntas, esse assunto tem me cansado demais esse semana.

É que eu acho uma besteira “um dia internacional da mulher”. Ora, quem tem dia não tem nada. Dia dos pais, das mães, das crianças, são dias comerciais. Mas então o que significaria o dia internacional da mulher? È o mesmo que o dia do índio, ou dia da consciência negra: faz-se um “dia comemorativo” para àqueles que não tem dia nenhum, para os oprimidos e minorias se contentarem em ter pelo menos 1 dia, e mais nada. Dia oito eu vi varias mulheres circulando pela cidade com rosas vermelhas nas mãos. Minha mãe mesmo pareceu com uma rosa aqui em casa. Será que elas não se cansam de todo o dia oito de março ganhar flores que parecem querer mostrar como são importantes? Importantes sim, mas só no dia oito de março reconhecemos este fato. É como a música: “todo o dia, era dia de índio... agora eles só têm o dia dezenove de abril...”

Esta semana também recebi o convite de trabalhar em uma produtora de cinema muito conceituada, e com pessoas que eu conheço e muito admiro. E não vejo o trabalho como “uma facilidade” (apesar de ser), mas como uma oportunidade de conhecer um meio de comunicação que muito me interessa, e estudar bastante. Mas os trabalhos atrasaram um pouco eu tenho medo de atrapalharem a faculdade e os ensaios com a companhia. Ultimamente o trabalho com a companhianomala tem me motivado de uma forma inimaginável. O trabalho desenvolvido, e que expliquei na ultima carta, tem me ajudado a compreender melhor “o que se passa a minha volta”, e me dado uma outra visão de mundo, que é ao dubiamente sedutor e cruel.

Estou seguindo a sua sugestão de formação de uma cultura literária especifica a nós, brasileiros. Depois de ler o livro do Roberto Moura de que lhe falei, estou lendo “Samba, o dono do corpo”, do Muniz Sodré; e depois estou convicto em ler o “Macunaíma”. Vou deixar o “1984”, que o Remo me emprestou, ainda na espera. Os assuntos brasileiros tem me atraido mais.

O blog vai indo. De certo que você teria um. As amigdalas estão melhores, apesar do médico ter recomendado tirar. Mas, como ariano teimoso que sou, ainda vou tentar tratar com homeopatia, e se não der certo, picolé e hemorragia. Não sei se isso bom ou ruim, mas estou certo que se tivesse nascido a um século atrás, já estaria morto. Será que algum jovem naquela época resistiria à toxoplasmose, pneumonia e amidagdalite em menos de seis meses? Minha mãe, nesta época, já não resiste...

Desculpe não aprofundar mais. São duas da manhã e o cansaço já não permite o raciocínio.

“Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã."

Um abraço do amigo,

Raonino Sabino

5 comentários:

  1. O sinal do 5o tempo me impede de prolongar, só posso dizer que respondo assim que voltar. Abraços R.L.

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  2. Prezado Mário,

    Imagino o quanto vc não deve estar rindo das confusões deste adolescente, porém, meu amigo, vc também sabe q todos nós vivemos em busca dos sonhos ao longo da vida.
    E, Mário, vc deve compreender q, mesmo adultos, não conseguimos evitar q nossos filhos aprendam a caminhar por si mesmos e sabemos q, sem dúvida, cair faz parte do processo. Cair e levantar e, assim, ir conquistando alguma humildade e certa paciência com os próprios erros e as falhas q todos possuem. Posso dizer q estou tentando ainda ser um pouquinho mais complacente e um tantinho menos arrogante. Sem mais, Roze.

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  3. Caro menino com nome de índio,
    constato minha preguiça em postar-me diante de um teclado e processar idéias. Por causa disso tenho sofrido bastante confusão pois elas se acumulam num lugar fechado e ali fermentam e encorpam a massa do bolo de maneira que sem ter por onde sair, escorrem pelos orifícios em forma de uma linfa um tanto complicada. É algo gosmento e a preguiça não tem me permitido limpar. Então a merda se espalha pelo corpo, penetra pelos póros, vai para a corrente sanguínea e renova o ciclo novamente como linfa. Estou me tornando uma criatura repugnante, só me faltam brotar escamas.

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  4. Na rua Aurora eu nasci
    Na aurora de minha vida
    E numa aurora cresci.

    No largo do Paissandu
    Sonhei, foi luta renhida,
    Fiquei pobre e me vi nu.

    Nesta rua Lopes Chaves
    Envelheço, e envergonhado
    Nem sei quem foi Lopes Chaves.

    Mamãe! me dá essa lua,
    Ser esquecido e ignorado
    Como esses nomes da rua.

    Mário de Andrade

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  5. Arrisco essa combinação de letras e começo a formar palavras, frases, sentidos...
    essas máquinas que dividem as palavras em seus dez dedos dividem em cada um a função
    autônoma das frases que passam por extenso (e correndo!) pela minha cabeça.
    Essa autonomia os torna muito pensantes, todos sabem o que irei escrever, olha agora!
    eles sabem de tudo...antes não. Antes era diferente: a mão (com os dedos unidos)
    girava milimetricamente em seu pulso-eixo e só se lia o resultado após.. agora todos
    já sabem o que virá. Maldita modernidade.
    Essa na verdade não era a primeira parte re-produzida que me prometi.
    Na verdade o começo era bem diferente. Falava de o quanto admirava e até agradecia
    pela oportunidade de crear tendo suas revelações como inpiração.. e tal.. mas agora já citado, desenvolvo O Que Viria Depois. Nesse momento meus dedos ficaram borrifados de suor. Algumas unhas podadas e meus pés em frenesi completam o quadro ansioso.
    Meu espírito se agita.
    O espeho na janela girando com o vento me revela. Mas com uma postura horrível! É, mas não dizem que
    são as curvas naturais do corpo pra suportar a gravidade? 10m/s²..
    Viu, viu só?!.. (denunciam esses presunçosos) - Está fugindo dos 5 critérios!!
    Eles teimam em escrever Aquilo...
    São como aquelas máquinas, as impressoras, que por mais que você as cancele, elas irão
    cumprir o trabalho, e não as irrite, senão descontam besteir##!HF&&#*as.
    Manuscrito é melhor! (.)
    É, pra dizer a verdade a segunda parte até existe. Mas é impossível vir sob esse contesto. O que posso dizer é que continue me informando das novidades. Eu por essa carta nada falei de mim, mas prometo notícias, assim que me achar.

    Saudações, e bom barbecue,
    R.

    25.sexta-março.05

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